Semiárido no mundo

José Lemos

As Nações Unidas caracterizam as regiões do planeta de acordo com a sinergia existente entre clima, vegetação e solos, principalmente, em áreas: hiper-áridas, áridas, semiáridas, sub úmidas secas, sub úmidas-úmidas e úmidas.

As áreas com terras secas (hiper-aridas, áridas e semiáridas) cobrem aproximadamente 40% da superfície da terra. Nelas sobrevivem em torno de dois bilhões de pessoas, 90% situados em países em desenvolvimento. São populações fortemente sujeitas ao processo de desertificação, além de serem vulneráveis ao acesso de renda e aos ativos sociais (água potável e saneamento, principalmente). Por isso são potenciais migrantes para zonas urbanas onde engrossarão os cinturões de pobrezas de cidades que já são naturalmente carentes e que veem agravadas essas dificuldades devido ao adensamento já desordenado, incrementado por contingentes populacionais expulsos dos seus locais de origem devido às vulnerabilidades à que estavam expostos.

As áreas definidas no bioma semiárido, por sua vez, apresentam características climáticas, de solos, cobertura vegetal e de fauna nativa bastantes características. No mundo há regiões semiáridas nas Américas, na Oceania, Ásia e África. No continente Sul-americano existem três (3) grandes semiáridos: Guajira, que se espraia pela Venezuela e Colômbia. Outra área que se estende em diagonal cobrindo partes da Argentina, Chile e Equador. A terceira, e mais povoada região semiárida do continente Sul-americano, está no Nordeste brasileiro. Aqui o semiárido se espraia num enorme espaço físico em que predomina uma vegetação rala e rasteira, única no mundo, chamada de caatinga. Termo de origem tupi que significa “vegetação branca”. As temperaturas médias são muito elevadas. A pluviosidade é instável, tanto na dimensão temporal (ao longo dos anos) como espacial (dentro de cada ano). A normalidade é a sequencia de anos com baixa pluviosidade, concentrada em três a quatro meses, com nove a oito meses de estiagem. Devido às temperaturas elevadas, incidência dos ventos e a uma vegetação que mesmo estando em visível estágio de fragilização, transpira, o balanço hídrico (relação entre chuva que cai e água que evapora por causa desses fatores, insolação, ventos e transpiração das plantas) é quase sempre negativo.

Isto dificulta as práticas agrícolas, sobretudo quando exercidas sem o uso de tecnologias adequadas para essas condições. Este cenário que prevalece por longos anos nos estados do Nordeste, a partir do Piauí até a Bahia, também afeta municípios de Minas Gerais e do Maranhão. Reconhecidos pelo Ministério da Integração Regional existem atualmente 1.133 municípios inclusos no semiárido ocupando uma área de 969.589,4 quilômetros quadrados. Esses municípios estão em oito estados da região, excluindo o Maranhão, e incluindo Minas Gerais. Neles sobrevive uma população de 23,15 milhões de pessoas. Caso se incluam os 15 municípios maranhenses com características técnicas já comprovadas de semiárido, mas não reconhecidos pelo Ministério da Integração Nacional, essa população ascenderá para 24 milhões.

Aos problemas climáticos, que decorrem da posição geográfica da região, mas que também contam com forte contribuição da ação humana, agregam-se os elevados níveis de concentração fundiária e o descaso das politicas públicas que privam as populações dessas áreas de serviços essenciais como educação, água encanada, saneamento, coleta sistemática com destino adequado dos resíduos sólidos, que corroboram com a situação de vulnerabilidade das populações rurais do semiárido. Esta sinergia de eventos contribui para que parte significativa da população rural dessas áreas migre para as áreas urbanas dos municípios nordestinos, sobretudo aqueles de maior densidade populacional, como o são as captais dos estados.

Há conhecimento científico para a convivência com a escassez hídrica. Processo que passa pela qualificação dos sujeitos envolvidos. Uma das maiores carências do semiárido, para além das vulnerabilidades climáticas, é a falta de acesso às informações tendo em vistas que a escolaridade média que prevalece é baixa, em torno de quatro anos, e as taxas de analfabetismo são as maiores do Brasil. Tendo acesso às informações e às tecnologias podemos encontrar surpresas agradáveis. Com efeito, no semiárido brasileiro encontram-se oásis de produção agrícola como o complexo do vale São Francisco em Juazeiro (Bahia) e Petrolina (Pe). No Ceará se desenvolvem projetos de fruticultura e de floricultura com sucesso. Isto sem falar nas alternativas não agrícolas.

Em 13 de maio de 2014 um grupo de professores assessorados por bolsistas dos cursos de Agronomia e Economia, criou o Laboratório do Semiárido (LabSar) que tem entre os seus objetivos reunir o acervo de conhecimentos gerados para a convivência com a escassez hídrica e o rigor do clima deste bioma, ao tempo que gera pesquisas que buscam encontrar mais alternativas. Uma missão que tem sido gratificante até aqui, a despeito das dificuldades que a nossa região vem experimentando nos últimos anos. Mas estas (as dificuldades de toda ordem) são, paradoxalmente, o combustível que nos faz querer trabalhar e contribuir para a mudança de um panorama secular.

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