“Lava Jato” Fazendo a Faxina Nacional

O famoso novelista, escritor, articulista, Nelson Rodrigues, atribuía a Otto Lara Rezende, que era mineiro, a autoria da frase “o mineiro só é solidário no câncer”, fato que era negado por Otto que , pode não ter sido o autor da frase que ficou famosa, mas foi um grande formulador de frases de efeito. Outra, entre tantas que ele grafou e que eu destaco aqui e que, como a anterior, tem tudo a ver com o momento politico que vivemos foi: “Abraço e punhalada a gente só dá em quem está perto.”

A minha mãe, que não tinha estudos, mas era de uma sabedoria incrível apreendida na escola da vida difícil que levou, também tinha umas “tiradas” interessantes. Ela dizia que na terra dela, a bela Caxias do nosso sofrido Maranhão, se falava: “ladrão só, prostituta só”.

A frase atribuída a Otto Lara Rezende não é generalizada apenas para os mineiros, mas de um tipo especifico de pessoa, com determinado caráter, que poderia ter nascido em qualquer lugar. Como era mineiro, caso tenha sido de fato o autor da famosa frase, Otto provavelmente imaginou que provocaria menos estragos, porque não estaria se auto excluindo daquele comportamento.

A operação “lava jato” que se desenvolve no Brasil atualmente recebe o apoio da grande maioria dos brasileiros de bem. Este aval é um alivio porque nos sugere que somos, regra geral, gente que gosta de trabalhar, honesta, que não aprecia “malfeitos”, metáfora “politicamente correta” criada recentemente para identificar falcatruas.

O instrumento que ficou popularmente conhecido como “delação premiada” reforça a frase que a minha mãe sempre falava. Ladrão acompanhado está perdido. Praticando delitos com ao menos uma testemunha ele poderá ter no comparsa o seu “dedo duro” no futuro. Ou, o que é a mesma coisa, malfeitores somente são solidários quando estão fazendo malfeitos. Enquanto os malfeitos rendem, todos caminham juntos, tiram proveito e se dão bem. Quando são pegos começam a se acusarem.

As “delações premiadas” feitas por quem cometeu delitos nessa avalanche inimaginável de corrupção que tomou conta do Brasil estão demonstrando que, aqueles que fizeram falcatruas se mantiveram solidários enquanto se locupletavam. Na hora em que perceberam que foram pegos, e na iminência de se tornarem um Marcos Valério, resolveram “entregar” velhos parceiros. Amigos que eram até bem pouco tempo.

O estouro das informações bombásticas do que falou o ex-senador Sergio Machado que, por longos doze anos esteve na direção da Transpetro, um dos pedaços mais suculentos do que foi a Petrobrás, quando se viu em apuros, decidiu que contaria o que sabe de pessoas que eram até bem pouco tempo seus “amigos desde infância”. A imprensa noticiou fartamente que ele estava naquele cargo por designação da fatia de poder na “Respública” petista-pmdebista que cabia ao Senador Renan Calheiros, homem que já demonstrou ser capaz de malabarismo e que tem muitas vidas na atividade política. Somente em republiquetas terceiro-mundistas sobrevive gente assim.

Aqui cabe a máxima de Otto Lara Rezende: “Abraço e punhalada a gente só dá em quem está perto.” Eles sempre estiveram muito juntos nos “negócios” que mantinham ancorados naquela fonte quase inesgotável do vil metal. Sergio Machado também era próximo de toda a cúpula do PMDB. Em apuros, resolveu gravar de forma sub-reptícia (sem que os interlocutores, seus amigos, percebessem) todas as conversas que mantinha com eles. Esperto, encaminhava os diálogos para que os “amigos” falassem o que ele precisava para juntar aos seus argumentos para dizer que ele não estava só naquela sujeira. Assim pegou com a “boca na botija” o senador Romero Jucá que estava pousando de novo vestal da Republica post-PT. Envolveu o ex-presidente da República, aquele que quando imaginamos que sumiu, ele ressurge como fênix atuando nos bastidores. E se fala que da delação dele, Sergio Machado, sobra muito pouca gente dos que estão nas duas casas do Parlamento, inclusive vestais vistosos do PSDB.

O ex-senador Delcidio do Amaral, muito próximo da então Presidente, tanto que era o seu líder e homem de confiança no Senado, além de ser amicíssimo do ex-presidente, mentor e inventor da então presidente, ao se ver em dificuldades, disparou a sua metralhadora em todas as direções e atingiu muita “gente boa”. Incomodou tanto, que os seus pares no Senado cassaram o seu mandato, contrariando o que queriam Sergio Machado, o Presidente do Senado e o ex-presidente da república. E se fala que a “Respublica” ruirá de vez quando sair a delação dos Executivos da Odebrecht.

Malfeitores somente são solidários quando estão fazendo mal feitos, e somente abraçam e apunhalam quem está perto deles. Esqueceram que aprontando juntos estão dando munição para os amigos que um dia lhes denunciarão. Ainda bem que agem assim. De outra forma, tudo que está vindo agora nós nunca saberíamos. Portanto, a Operação Lava Jato, os Procuradores da PGR, da Policia Federal, o Juíz Sergio Moro e todo o Poder Judiciário devem merecer todo o nosso apoio. Devemos sempre contrariar o que sugere a esfinge maranhense. Se ele aponta caminhos para irmos para o Norte, sigamos para o Sul que será sempre mais seguro. E correto.

*Professor Titular na Universidade Federal do Ceará.

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Semiárido no mundo

José Lemos

As Nações Unidas caracterizam as regiões do planeta de acordo com a sinergia existente entre clima, vegetação e solos, principalmente, em áreas: hiper-áridas, áridas, semiáridas, sub úmidas secas, sub úmidas-úmidas e úmidas.

As áreas com terras secas (hiper-aridas, áridas e semiáridas) cobrem aproximadamente 40% da superfície da terra. Nelas sobrevivem em torno de dois bilhões de pessoas, 90% situados em países em desenvolvimento. São populações fortemente sujeitas ao processo de desertificação, além de serem vulneráveis ao acesso de renda e aos ativos sociais (água potável e saneamento, principalmente). Por isso são potenciais migrantes para zonas urbanas onde engrossarão os cinturões de pobrezas de cidades que já são naturalmente carentes e que veem agravadas essas dificuldades devido ao adensamento já desordenado, incrementado por contingentes populacionais expulsos dos seus locais de origem devido às vulnerabilidades à que estavam expostos.

As áreas definidas no bioma semiárido, por sua vez, apresentam características climáticas, de solos, cobertura vegetal e de fauna nativa bastantes características. No mundo há regiões semiáridas nas Américas, na Oceania, Ásia e África. No continente Sul-americano existem três (3) grandes semiáridos: Guajira, que se espraia pela Venezuela e Colômbia. Outra área que se estende em diagonal cobrindo partes da Argentina, Chile e Equador. A terceira, e mais povoada região semiárida do continente Sul-americano, está no Nordeste brasileiro. Aqui o semiárido se espraia num enorme espaço físico em que predomina uma vegetação rala e rasteira, única no mundo, chamada de caatinga. Termo de origem tupi que significa “vegetação branca”. As temperaturas médias são muito elevadas. A pluviosidade é instável, tanto na dimensão temporal (ao longo dos anos) como espacial (dentro de cada ano). A normalidade é a sequencia de anos com baixa pluviosidade, concentrada em três a quatro meses, com nove a oito meses de estiagem. Devido às temperaturas elevadas, incidência dos ventos e a uma vegetação que mesmo estando em visível estágio de fragilização, transpira, o balanço hídrico (relação entre chuva que cai e água que evapora por causa desses fatores, insolação, ventos e transpiração das plantas) é quase sempre negativo.

Isto dificulta as práticas agrícolas, sobretudo quando exercidas sem o uso de tecnologias adequadas para essas condições. Este cenário que prevalece por longos anos nos estados do Nordeste, a partir do Piauí até a Bahia, também afeta municípios de Minas Gerais e do Maranhão. Reconhecidos pelo Ministério da Integração Regional existem atualmente 1.133 municípios inclusos no semiárido ocupando uma área de 969.589,4 quilômetros quadrados. Esses municípios estão em oito estados da região, excluindo o Maranhão, e incluindo Minas Gerais. Neles sobrevive uma população de 23,15 milhões de pessoas. Caso se incluam os 15 municípios maranhenses com características técnicas já comprovadas de semiárido, mas não reconhecidos pelo Ministério da Integração Nacional, essa população ascenderá para 24 milhões.

Aos problemas climáticos, que decorrem da posição geográfica da região, mas que também contam com forte contribuição da ação humana, agregam-se os elevados níveis de concentração fundiária e o descaso das politicas públicas que privam as populações dessas áreas de serviços essenciais como educação, água encanada, saneamento, coleta sistemática com destino adequado dos resíduos sólidos, que corroboram com a situação de vulnerabilidade das populações rurais do semiárido. Esta sinergia de eventos contribui para que parte significativa da população rural dessas áreas migre para as áreas urbanas dos municípios nordestinos, sobretudo aqueles de maior densidade populacional, como o são as captais dos estados.

Há conhecimento científico para a convivência com a escassez hídrica. Processo que passa pela qualificação dos sujeitos envolvidos. Uma das maiores carências do semiárido, para além das vulnerabilidades climáticas, é a falta de acesso às informações tendo em vistas que a escolaridade média que prevalece é baixa, em torno de quatro anos, e as taxas de analfabetismo são as maiores do Brasil. Tendo acesso às informações e às tecnologias podemos encontrar surpresas agradáveis. Com efeito, no semiárido brasileiro encontram-se oásis de produção agrícola como o complexo do vale São Francisco em Juazeiro (Bahia) e Petrolina (Pe). No Ceará se desenvolvem projetos de fruticultura e de floricultura com sucesso. Isto sem falar nas alternativas não agrícolas.

Em 13 de maio de 2014 um grupo de professores assessorados por bolsistas dos cursos de Agronomia e Economia, criou o Laboratório do Semiárido (LabSar) que tem entre os seus objetivos reunir o acervo de conhecimentos gerados para a convivência com a escassez hídrica e o rigor do clima deste bioma, ao tempo que gera pesquisas que buscam encontrar mais alternativas. Uma missão que tem sido gratificante até aqui, a despeito das dificuldades que a nossa região vem experimentando nos últimos anos. Mas estas (as dificuldades de toda ordem) são, paradoxalmente, o combustível que nos faz querer trabalhar e contribuir para a mudança de um panorama secular.

Inflexão da Curva da Vida

Por José Lemos

Quem não conhece bem a língua inglesa acha-a pobre. Credita-a um pragmatismo que dizem não existir nas latinas, mais ricas, segundo esta avaliação. Não bastasse esse conflito, ainda há desencontros entre o inglês falado na Inglaterra, que os ingleses acreditam mais puro do que aquele falado nos EUA, que acusam de ser imediatista.Polêmicas à parte, a língua que foi falada por Shakespeare e Abraham Lincoln tem duas palavras para distinguir um evento que, em português, tem apenas uma.

Em português falamos indistintamente aniversário para o dia do nosso nascimento, ou para a comemoração de um evento especial, como o dia em que assumimos um emprego, que trocamos o primeiro beijo com uma pessoa que amamos, ou mesmo, aquele em que pela primeira vez fizemos amor com ela. A primeira vez jamais esqueceremos. Se foi boa.

Em inglês o dia do nosso nascimento é o “birthday”. Qualquer outra comemoração que se dê a cada ano será chamada de “anniversary”. A língua inglesa dá assim uma conotação especialíssima para este dia que é um marco nas nossas vidas.

Nesta semana, que começa no dia 22, eu comemorarei mais um ano do dia do meu nascimento ou aniversário.Comemoramos o nosso aniversário na perspectiva de que alcançamos mais um ano de vida. Mas existe outro lado (talvez sombrio, em geral despercebido) desse evento, como se fosse duas faces de uma moeda. Só que, ao contrário das moedas que são utilizadas para fazer as famosas experimentações estatísticas, em que ambas as faces devem ter igual chance de ocorrer, na moeda da vida não é bem assim. A cada ano que avançamos, mais viciada a moeda da nossa vida ficará, no sentido de que menos tempo ainda teremos para viver.

Assim, se quando nascemos estávamos “programados”, por alguém sobrenatural e que não conhecemos, para viver cinquenta anos, ao celebramos com alegria o 48º aniversário, na verdade estamos “comemorando” os dois anos que nos restam. Duro? Como não sabemos disso (ainda bem), tocamos em frente às comemorações.

As Nações Unidas criaram em 1990 o conceito de desenvolvimento humano que estabelece que para atingi-lo as pessoas devem ter vida longa, “beber na fonte do saber”, e ter renda digna. Para calcular a longevidade a entidade utiliza o conceito de esperança de vida ao nascer. Assim, quem nasce no Brasil hoje, tem uma esperança de vida de aproximadamente setenta e quatro anos. Quem nasceu na minha geração, e em gerações anteriores, a esperança de vida é bem menor. Ela evolui com os avanços da medicina, com o advento de tecnologias que viabilizam o acesso a itens que possibilitam viver mais.

A esperança de vida ao nascer é apenas um referencial. Não é determinismo dos anos de vida que teremos por aqui. Ainda bem que é assim! Mas serve como referencia para fazermos algumas reflexões acerca da nossa breve passagem por este belo planeta.Vamos fazer um exercício (talvez bobo e, por isso peço desculpas aos leitores) acerca da trajetória na vida de uma criança que nasça neste ano, exatamente no dia do meu aniversário. Ela terá uma esperança de vida de 74 anos. Caso admitamos a trajetória da nossa vida como sendo equivalente à de uma curva, então nos primeiros anos a curva da vida crescerá a taxa crescente. Entendida como a formação da massa óssea, muscular, acúmulo de conhecimentos, carga hormonal. Por volta dos dezoito até os vinte anos esses elementos atingiriam o ápice. Entre os quatorze anos e esta idade os garotos não podem ver um joelho de uma garota, uma cruzada de pernas sob uma saia mais ousada, ou as curvas da professora que esteja tentando, de costas para a turma, demonstrar teoremas de trigonometria, expondo sobre bioquímica ou fotossíntese. As garotas são mais comedidas, mas também tem os seus lampejos. Talvez isso explique porque se “apaixonam” por ídolos, colecionam fotografias, soltem gritos histéricos quando estão diante deles…

A partir desta idade a curva da vida continua num crescendo, mas agora a taxa decrescente, de sorte que entre os 37 e os 40 anos deve atingir, em algum lugar, o ápice. Inflexiona nesse ponto e entra em fase descendente. Inicialmente em taxas baixas e depois mais aceleradas. Não sei se este exercício faz algum sentido. Mas se parássemos para pensar sobre isso, bem lá atrás, talvez cometêssemos menos bobagens na juventude. Quando somos jovens, extrapolamos. Acreditamos que a nossa vida é infinita. Vemos as pessoas grisalhas com certo desdém. As chamamos de velhas.

Não entendemos que, caso não morramos no meio do caminho, este será o nosso destino normal. Na fase descendente já devemos ter construído boa parte do que esperamos fazer na vida. Tanto em termos profissionais, como de vida afetiva. Isto não significa que não possamos recomeçar, ou aprimorar e reparar, na fase madura, o que construímos. Continuar fazendo projetos de longo prazo me parece ser um bom elixir para uma longevidade saudável. Indolência, vida sedentária, conformismo, acredito eu, são aceleradores do processo da degeneração senil, física e, portanto, orgânica. Aniversário é um bom dia para refletir sobre isso. Eu acho!

Aquele garoto poderia ter sido eu

Por José Lemos*

Pedim era o primogênito dos filhos de Corrinha (forma carinhosa de chamar as Marias do Socorro maranhenses) e Zé. Os outros eram Chico, Riba, Toinha, Mundica e Zefa. Sobreviviam da pouca terra que ocupavam como posseiros em Paricatiua, povoado de Bequimão, um dos municípios mais carentes do Brasil. Foi batizado Pedro porque nasceu em 29 de junho, um grande feriado para os católicos no Maranhão.

Paricatiua sempre foi um vilarejo bonito e que hoje reúne umas quinhentas famílias humildes, predominando agricultores posseiros e pescadores. Foi assim designado em deferência a uma árvore da família das leguminosas: Paricá.

Paricatiua seria um lugar rico daquela bela espécie florestal. Caso tenha sido assim, hoje não se tem notícia da existência de Paricás naquele pedaço de chão sofrido e esquecido do Brasil.Pedim cresceu naquelas paragens convivendo com a natureza. Ajudava aos pais na roça de mandioca, arroz, feijão e milho. Coisa de algumas poucas “tarefas”. Uma “tarefa” equivale a aproximadamente um terço de hectare.

Corrinha dava duro nos trabalhos do roçado, mas também tinha de cuidar da casinha de taipa, com reboco e pintura precários, chão batido, coberta com palha de babaçu. A pouca comida, que era amealhada através das pescarias que Zé realizava no belo e até hoje frondoso rio Itapetininga que recebe influencia das marés e que banha o lugarejo, era cozida com lenha colhida da vegetação.

O peixe guisado (ou assado) era acompanhado com “xibé”: farinha d’água inflada com água.No quintal do casebre cercado com talos de babaçu, Corrinha criava algumas galinhas, e mantinha dois galos que eram os responsáveis pela “cobertura” daquele pequeno plantel, e a garantia de que sempre haveria pintos a serem criados.

Nas manhãs dava gosto ouvir os cantos daqueles bichos anunciando que eram eles os donos do terreiro. Faziam dueto em alternância. Vez em quando brigavam para garantir o cruzamento com a galinha que estava ali se insinuando. Os ovos das galinhas eram recolhidos, quando não eram devorados por animais silvestres, e ajudavam na dieta da família. Uma parte era colocada sob as galinhas para serem chocados.

No quintal, Zé e Corrinha plantaram alguns “pés de laranja”, limoeiro, mangueiras e uma jaqueira, daquelas do bago mole. Ah, aquelas jacas eram deliciosas. Pedim e os seus irmãos adoravam se lambuzar comendo os seus bagos.

Em ocasiões especiais, ou quando a pesca não ajudava, Corrinha tinha que sacrificar uma das galinhas para a refeição da família. Então se criava um grande problema. Pedim, garoto travesso, criado com o “pé no brasil” (descalço), com baladeira em punho, jamais caçava pássaros, não matava troiras, calangos ou outros animais.

A baladeira era utilizada para porfiar com os colegas acertando alvos como garrafas ou latas de leite esvaziadas. Também a usava para apanhar frutas como mangas no alto das mangueiras. Odiava ver passarinho preso. Sempre que tinha oportunidade, aproveitava o descuido do dono para abrir a porta da gaiola e solta o pássaro. Era prazeroso vê-los em liberdade. Tinha dó ao perceber que, depois de algum tempo aqueles animais criados naqueles cativeiros horríveis, perdiam a capacidade de sobrevivência. Desaprendiam a buscar a própria comida.

Mas Pedim intuía que seria bem melhor para o pássaro morrer livre e voando, a viver indefinidamente numa gaiola privado de uma “passarinha” para namorar, de “amigos” para voar em bando, de cantar livre sob aquele céu azul e bonito. Tomar banho de chuva.

Então o dilema estava feito. Não tinha comida em casa e Corrinha precisava alimentar Pedim, seus irmãos e Zé. A galinha teria que ser sacrificada. Pedim não concordava com a solução. Mas, óbvio, como criança ainda no pique dos seus onze anos, não tinha solução para o problema.

Ele sabia que qualquer uma daquelas galinhas que fosse escolhida para morrer merecia de todos eles uma enorme afeição. Imaginava no que a galinha “pensaria” ao ver a sua mãe com uma faca amolada na mão, puxando-lhe o pescoço para a degola. Logo ela, Corrinha, que todos os dias a alimentava, cuidava dela quando tinha “gogo”…

A galinha a ser sacrificada iria olhar, sem entender e nos estertores da perspectiva de morrer, para aquela mulher com a arma fatal que lhe ceifaria a vida. Isto era muito diferente do ataque de uma raposa ou de outro predador, já sabidamente inimigo dela, galinha. No caso do predador ao menos tinha chance de escapar.

Em vez disso estava Corrinha, que sempre se mostrara tão amiga, ali no ponto de tirar-lhe a vida. Terrível.Tudo isso passava pela cabeça daquele garoto. Não, Pedim não poderia concordar com aquele ato de violência. Pior ainda, de traição. Sim, traição mesmo. Brigava com a mãe, mas no final sempre prevalecia a vontade dos adultos.

Na hora do almoço Pedim sentado à mesa com seus pais e irmãos, tinha os olhos marejados. A comida lhe inchava na boca. Cresceu, mudou-se para uma grande cidade e descobriu que os abates de bois, suínos, carneiros e bodes conseguem ser ainda mais cruéis. Decidiu que nunca mais um animal teria que morrer para ele, Pedim, se alimentar.

Uma decisão radical? Talvez. Mas fundada em sentimentos de respeito ao direito à vida para os outros animais.

E Dizemos Que Eles são os Irracionais!

Por José Lemos

As relações do ser humano com a natureza são, no geral, muito desrespeitosas. Não temos o menor pejo em sair destruindo o ambiente em que vivemos para mostrar poder, ou tirar algum tipo de vantagem. Nós, que dizemos ser os mais inteligentes entre os seres vivos, usamos esta “inteligência” para provocar estragos no nosso planeta.Caso paremos para observar uma área de vegetação, que está muito tempo sem ser violada por gente, veremos que as espécies vegetais se distribuem de forma harmoniosa e diversificada, de acordo com a adaptação que têm ao ecossistema.

As árvores de porte arbóreo se dirigem para onde estiver a luz do sol. Fazem contorcionismos incríveis para buscar a sua fonte de vida. As outras espécies de menor porte também encontram os seus próprios caminhos para avançarem na direção da luminosidade ou das condições que a sua fisiologia requer para se manterem vivas e reproduzirem.

Nessa lide diária, nos oferecem espetáculos de cores, aromas, formas e nos fornecem, graciosamente, frutos deliciosos e sombra. Atraem pássaros que nos encantam com os seus cantos, abelhas que nos produzem mel, outros animais que se integram ao ambiente e o fazem pulsante, vivo, intenso, belo…

Neste começo de semana estive no município de Morros, aqui no Maranhão, e visitei um povoado por onde passa o rio Munim. Naquele microambiente em que estivemos a natureza nos proporciona um espetáculo deslumbrante.

A vegetação é densa e diversificada nas duas margens do rio. Em boa parte daquele espaço as copas das árvores se entrelaçam na parte superior, proporcionando um sombreamento para o espelho d’água cristalina que corre límpida convidando ao banho e à contemplação. Por causa dessa sinergia, naquele espaço, a perda de água do rio pela evaporação, que seria provocada pela luz solar, é mínima.

Tudo ali é harmonioso justamente porque o ser humano ainda não chegou com a sua “inteligência” para modificar. As pessoas simples com quem nós conversamos, e que moram naquelas imediações, descobriram que aquela beleza decorre justamente do fato de elas deixarem a natureza agir de acordo com a sua sabedoria.

O animal mais violento que se conhece, apenas atacará outros animais se for para se alimentar, caso se sinta ameaçado, ou para conseguir conquistar a fêmea no instinto de procriar. Os mais frágeis, as presas, desenvolvem habilidades incrivelmente inteligentes de sobrevivência. Ou estão sempre em grupos, para reduzir a “probabilidade” de ser a próxima vítima do predador, ou produzem camuflagens que os fazem ser confundidos com o ambiente em que estão. O bicho preguiça é um dos exemplos mais interessantes dessa ultima estratégia de sobrevivência.

Contrariamente ao que acontece com os animais, o ser humano é violento por instinto. Os filmes épicos mostram homens se matando em arenas abarrotadas de espectadores vibrando com aqueles atos de violência.

Nos dias de hoje a crônica policial mostra a violência de todos os dias. Homens matando pelo simples prazer de matar. Há aqueles que ceifam vidas de mulheres e que dizem que o fizeram por amor. Como alguém pode amar e destruir o ente amado? Há religiões em que homens matam outros homens em nome de Deus, segundo justificam. Como isso pode ser possível?

Os seres humanos acham bonito criar pássaros em gaiolas. Muitas delas minúsculas. Que prazer alguém sente em ver um pássaro privado da liberdade que lhe é inerente, da companhia de outros pássaros, de uma companheira para acasalar, cantando de tristeza numa gaiola a vida inteira? Seria aquilo um canto ou um desabafo daquele pobre animal? Onde estão o IBAMA e os órgãos estados de fiscalização que são tão rigorosos em outros casos envolvendo animais silvestres e são coniventes com essas atrocidades com os pássaros engaiolados?

Nós, os entes inteligentes, desenvolvemos “esportes” que humilham, maltratam e matam animais, como as touradas, vaquejadas e rodeios. Contudo, um dos exemplos maiores de crueldade dos humanos com os animais é o praticado contra os caranguejos, principalmente os da espécie uçá, esses que são vendidos nas barracas das praias do Nordeste.

Uma das grandes fontes desse crustáceo está no município de Araioses, Maranhão. Ali, boa parte da população rural, por falta de opções, sobrevive da coleta desses infelizes animais que são vendidos aos atravessadores por preços que variam entre R$0,25 a R$0,50 a unidade. Esses animais são amarrados, empilhados e transportados a quilômetros de distância, sem ter qualquer chance de reação.

Nos locais de destino, os que sobrevivem, ficam ainda por algum tempo sem se alimentar, sem hidratação e, em algum momento, serão jogados em caldeirões com água fervendo para logo em seguida serem degustados por gulosos consumidores dessas barracas de praias, ou em restaurantes, onde pagarão preços que chegam a ser de vinte a quarenta vezes superiores aos recebidos pelos humilhados catadores. E somos nós os seres racionais do planeta!

Zé Reinaldo: Finalmente o Reconhecimento

Por José Lemos *

josé_reinaldoAs urnas maranhenses abertas ontem finalmente fizeram justiça a um grande maranhense: o cidadão José Reinaldo Carneiro Tavares. Além de eleito Deputado Federal, recebeu votação expressiva, à altura da sua estatura de homem público comprometido com os maiores interesses dos nossos conterrâneos.

Não nos conhecíamos pessoalmente pelos idos do inicio deste milênio, por isso fui surpreendido por um convite dele, quando era Vice-governador e iria assumir o cargo de Governador, porque a titular do mandato iria se desincompatibilizar para concorrer ao Senado da República. Conhecedor do meu trabalho ele me convidou para conversar sobre o Maranhão. Fui com todo o prazer e tive a oportunidade de conhecer um brasileiro muito bem preparado tecnicamente e de grande sensibilidade. A partir dali eu aprendi a admirá-lo como homem público de grande envergadura.

Assumindo o Governo em abril de 2002, a grande sacada de Zé Reinaldo foi estabelecer uma meta de IDH a atingir. Na época o IDH era calculado por uma metodologia diferente da atual. A atual é mais sofisticada de um ponto de vista matemático e provoca um viés para baixo na maioria dos IDH aferidos pela metodologia anterior. Pela metodologia de então, o IDH maranhense de 2000 era de 0,636, o pior do Brasil. Vale ressaltar que também o era pela nova metodologia da ONU. Zé Reinaldo, inteligentemente, colocou no seu plano de Governo elevar aquele índice para 0,700 em 2006. Aquela passou a ser a “Meta mobilizadora” do Governo e todas as ações giravam em torno dela.

Para melhorar o indicador de renda, uma das componentes do IDH, recriou a Secretaria de Agricultura (Seagro), equivocadamente eliminada do organograma administrativo do estado pelo governo que lhe antecedera em 1998. Vinculadas à Seagro, criou as Casas do Agricultor Familiar (CAF). Contratou profissionais da área, e criou-lhes condições de trabalho. O Maranhão que havia chegado ao fundo do poço na produção agrícola, sobretudo aquela dos agricultores familiares em 1998, começou a recuperar a sua capacidade produtiva. Logo passou de uma posição marginal na capitação de recursos do Pronaf que detinha em 1999, 2000 e 2001, para protagonista, ao ponto de ter ficado na segunda posição em todo o Nordeste em 2006, tanto em número de contratos como em volume de recursos capitados. Por este instrumento elevou a renda dos maranhenses da zona rural e, por efeito transbordamento, para as zonas urbanas. O PIB per capita do estado deu saltos quantitativos importantes já a partir de 2004.

Um indicador importante do IDH é a esperança de vida ao nascer que tem a ver com o acesso ao saneamento, coleta sistemática de lixo e água encanada. Esses indicadores eram horríveis então. Seu Governo criou dois programas fundamentais: “Minha Unidade Sanitária” e “Agua em Minha Casa”. Programas que levaram saneamento minimamente adequado para as famílias rurais (onde a situação era mais crítica). Foi feito um programa intenso de perfuração de poços tubulares e construção de amplas redes de distribuição nos povoados dos municípios mais carentes. Famílias que nunca tiveram água nas torneiras passaram a tê-la. Um grande avanço!

Enfrentando a família que lhe fazia forte oposição, devidamente respaldada pelas ações do Presidente de então que, para não desgostar os novos aliados (aqueles mesmos que ele até bem pouco tempo não poupava adjetivos impublicáveis para desqualificar), conseguiu aprovar o Programa de Desenvolvimento Integrado do Maranhão, PRODIM. Com o Prodim foi possível, mesmo no pouco tempo em que o seu governo o administrou, levar ações estruturantes para os mais recônditos rincões maranhenses.

Zé Reinaldo teve a sabedoria de colocar pessoas competentes nos locais cruciais do Governo: Secretarias da Fazenda e de Planejamento. O Secretário de Fazenda conseguiu incrementar a arrecadação, sem aumentar alíquotas, apenas tornando-a mais eficiente. O Secretario de Planejamento agia com mão pesada no controle das despesas do estado, de tal sorte que os recursos propiciaram condições para que as politicas públicas avançassem. Tudo isso acontecendo apesar de uma divida contraída pelo governo anterior que sangrava o orçamento do estado em 50 milhões todos os meses.

Faltava ainda atacar na outra frente do IDH que era a elevada taxa de analfabetismo e a baixa escolaridade. Isso foi conseguido pelo mutirão de alfabetização que se implantou na época e pela construção de escolas de nível médio em todos os municípios. O Governo anterior as havia deixado em apenas 59 dos 217 municípios. Com todo este trabalho o IDH do Maranhão superou a meta, de acordo com a metodologia antiga, atingindo 0,705, e o Maranhão finalmente descolou da última posição do ranking que o colocava como o estados mais carente do Brasil.

Com este portfólio, Zé Reinaldo tinha garantida a eleição para o Senado da República se assim o desejasse em 2006. Mas de novo surpreendeu e pensando nas próximas gerações em vez do próprio próximo futuro, abdicou desta possibilidade para não deixar a administração em mãos não confiáveis que poderiam desmoronar tudo o que havia sido feito. Segurou até o final para ajudar a eleger o sucessor que poderia dar continuidade à sua obra. Conseguiu, numa proeza até então inimaginável: derrotar a família poderosa que dominava o estado. Infelizmente o seu trabalho não havia até aqui sido reconhecido pelos maranhenses. Reparo que é feito nestas eleições. Quem ganha com a eleição de Zé Reinaldo como Deputado Federal são os maranhenses e o Parlamento Brasileiro que não será mais o mesmo com o retorno desse homem de elevada qualificação e sensibilidade.

*Professor Associado e Coordenador do Laboratório do Semiárido (LabSar) na Universidade Federal do Ceará. http://www.lemos.pro.br;

“VIVER NÃO É PRECISO…”

José Lemos*

            Viver é estar sujeito a eventos imprevisíveis. Sonhos que acalentamos com esmero, podem não se concretizar por causa de um imprevisto. A probabilidade de acontecer situações indesejáveis na nossa vida aumenta na medida em que o tempo avança. Quando mais jovens temos a impressão de que teremos vida eterna. Nesta fase, quando olhamos uma pessoa de quarenta anos ou mais, com cabelos já ficando prateados, em geral, as tratamos com desdém. Sem nos aperceber da grosseria, as chamamos de “tia”, “tio”. Em casa, os pais perdem os nomes. São simplesmente tratados como “velhos”, “coroas”. Dizemos que estão ultrapassados. Não temos tempo para dialogar com eles, lhes contar confidencias. Preferimos as “redes sociais”. Flertamos com a “virtualidade das amizades”.

            Nas vésperas dos dias das Mães, ao despedir-me dos meus estudantes. nas disciplinas que leciono nos cursos de pós-graduação e de graduação, eu falo para os meus estudantes serem carinhosos com aqueles entes que lhes deram a vida e que tudo fazem para que o melhor lhes aconteça. Lembro-lhes que apesar de educar os filhos ser uma obrigação dos pais, neste Brasil de hoje eles fazem ginásticas para lhes prover esse direito. Conquistar vaga numa Universidade Pública acaba sendo privilégio de alguns. Também por isso eu lhes sugiro: No dia das mães, não precisam dar presente material. Basta um abraço, um beijo e chamá-la de Mamãe. Assim mesmo. Soa gostoso aos ouvidos. No dia dos Pais, que não tem o prestigio e o apelo comercial do dia das mães, façam a mesma coisa. Dêem-lhe um abraço, um beijo carinhoso no rosto e chamem-no de Papai. Nada de referir-se ao pai e à mãe como “velhos”. Muito menos como “coroas”. Papai, Mamãe é como ambos querem ser tratados. Prossigo na minha preleção de despedida dizendo-lhes: Façam isso enquanto ainda podem. Depois que eles forem saudade, não adiantará exaltar-lhes as qualidades, pois não mais ouvirão. Precisarão apenas de orações.

            Acompanhei na semana passada pelo canal da BBC de Londres, e pela CNN americana, a cobertura que foi dada ao falecimento do ator Philip Hoffman, ganhador de Oscar de melhor ator em 2006. Não tinha muita familiaridade com a carreira dele, mas pelo destaque que aquelas duas estações prestigiosas deram na cobertura da sua passagem, fiquei com o sentimento de que ele foi um talentoso ator. Mas o que chamou atenção é o fato de ele ter sido encontrado morto, aos quarenta e seis anos, no banheiro do seu apartamento. Junto ao seu corpo havia uma seringa, provavelmente destinada à aplicação de alucinógeno. Esta foi a suspeita da policia americana. O passado dele como usuário contumaz de álcool e drogas sugeria que a causa morte teria sido uma super dose de produtos alucinantes.

            Ele é apenas mais um que se junta aos casos de famosos como Elvis Presley, Elis Regina e muitos anônimos que morreram e morrerão assim. A pergunta que fica é: O que leva um humano, que dizemos ser o mais racional dos seres vivos, a cometer a atrocidade da autodestruição? O que induz uma pessoa começar a fumar na juventude prosseguir com o vício até aparecer, com certeza, a disfunção erétil, diagnóstico de algum tipo de câncer, de doença pulmonar, ou AVC? O que faz alguém enveredar pelo alcoolismo que deforma o corpo, destruir o cérebro e a vida? Em geral começa-se a beber e ou a fumar na juventude e os estragos vão se acumulando no organismo. Viciados em fumo, álcool ou outra droga, exibem idade aparente superior à biológica. Philip Hoffman estava assim. Muito envelhecido para a sua pouca idade. Ora, se a vida é imprecisa, quando maltratamos o nosso organismo dessa forma é claro que estaremos abreviando a nossa breve passagem por aqui, aumentando a probabilidade de que eventos fulminantes destruam os nossos sonhos.

Quando jovens devíamos aprender que a maturidade é o caminho natural de quem não morre cedo. Por isso é sempre dignificante respeitar aqueles que lograram ultrapassar a fase da vida em que somos, naturalmente, mais irreverentes, irresponsáveis até. A juventude é para ser vivida intensamente. Mas requer a sabedoria de estarmos atentos com a possibilidade de incorporar hábitos, vícios, costumes que se encarregarão de nos privar, mais tarde, de também ser incomodados. Pela precocidade da nossa passagem pela terra, causada por maus hábitos, jamais seremos chamados de “tio”, “tia”, “velho”, “velha” ou “coroa”. Ou, devido a esses maus hábitos, sermos tratados precocemente desta forma.  Caso tenhamos a ventura de chegar à maturidade pelo decurso do tempo, saberemos como é ruim receber tratamento odiento, carregado de preconceito e de discriminação. A vida é como ela é. Jamais será do jeito que gostaríamos que ela fosse. Eternamente jovens. Lição difícil de apreender, mas necessária de absorver. Para não sermos infelizes por aqui. 

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Artigo publicado no dia 8 de fevereiro de 2014 no O Imparcial