Aquele garoto poderia ter sido eu

Por José Lemos*

Pedim era o primogênito dos filhos de Corrinha (forma carinhosa de chamar as Marias do Socorro maranhenses) e Zé. Os outros eram Chico, Riba, Toinha, Mundica e Zefa. Sobreviviam da pouca terra que ocupavam como posseiros em Paricatiua, povoado de Bequimão, um dos municípios mais carentes do Brasil. Foi batizado Pedro porque nasceu em 29 de junho, um grande feriado para os católicos no Maranhão.

Paricatiua sempre foi um vilarejo bonito e que hoje reúne umas quinhentas famílias humildes, predominando agricultores posseiros e pescadores. Foi assim designado em deferência a uma árvore da família das leguminosas: Paricá.

Paricatiua seria um lugar rico daquela bela espécie florestal. Caso tenha sido assim, hoje não se tem notícia da existência de Paricás naquele pedaço de chão sofrido e esquecido do Brasil.Pedim cresceu naquelas paragens convivendo com a natureza. Ajudava aos pais na roça de mandioca, arroz, feijão e milho. Coisa de algumas poucas “tarefas”. Uma “tarefa” equivale a aproximadamente um terço de hectare.

Corrinha dava duro nos trabalhos do roçado, mas também tinha de cuidar da casinha de taipa, com reboco e pintura precários, chão batido, coberta com palha de babaçu. A pouca comida, que era amealhada através das pescarias que Zé realizava no belo e até hoje frondoso rio Itapetininga que recebe influencia das marés e que banha o lugarejo, era cozida com lenha colhida da vegetação.

O peixe guisado (ou assado) era acompanhado com “xibé”: farinha d’água inflada com água.No quintal do casebre cercado com talos de babaçu, Corrinha criava algumas galinhas, e mantinha dois galos que eram os responsáveis pela “cobertura” daquele pequeno plantel, e a garantia de que sempre haveria pintos a serem criados.

Nas manhãs dava gosto ouvir os cantos daqueles bichos anunciando que eram eles os donos do terreiro. Faziam dueto em alternância. Vez em quando brigavam para garantir o cruzamento com a galinha que estava ali se insinuando. Os ovos das galinhas eram recolhidos, quando não eram devorados por animais silvestres, e ajudavam na dieta da família. Uma parte era colocada sob as galinhas para serem chocados.

No quintal, Zé e Corrinha plantaram alguns “pés de laranja”, limoeiro, mangueiras e uma jaqueira, daquelas do bago mole. Ah, aquelas jacas eram deliciosas. Pedim e os seus irmãos adoravam se lambuzar comendo os seus bagos.

Em ocasiões especiais, ou quando a pesca não ajudava, Corrinha tinha que sacrificar uma das galinhas para a refeição da família. Então se criava um grande problema. Pedim, garoto travesso, criado com o “pé no brasil” (descalço), com baladeira em punho, jamais caçava pássaros, não matava troiras, calangos ou outros animais.

A baladeira era utilizada para porfiar com os colegas acertando alvos como garrafas ou latas de leite esvaziadas. Também a usava para apanhar frutas como mangas no alto das mangueiras. Odiava ver passarinho preso. Sempre que tinha oportunidade, aproveitava o descuido do dono para abrir a porta da gaiola e solta o pássaro. Era prazeroso vê-los em liberdade. Tinha dó ao perceber que, depois de algum tempo aqueles animais criados naqueles cativeiros horríveis, perdiam a capacidade de sobrevivência. Desaprendiam a buscar a própria comida.

Mas Pedim intuía que seria bem melhor para o pássaro morrer livre e voando, a viver indefinidamente numa gaiola privado de uma “passarinha” para namorar, de “amigos” para voar em bando, de cantar livre sob aquele céu azul e bonito. Tomar banho de chuva.

Então o dilema estava feito. Não tinha comida em casa e Corrinha precisava alimentar Pedim, seus irmãos e Zé. A galinha teria que ser sacrificada. Pedim não concordava com a solução. Mas, óbvio, como criança ainda no pique dos seus onze anos, não tinha solução para o problema.

Ele sabia que qualquer uma daquelas galinhas que fosse escolhida para morrer merecia de todos eles uma enorme afeição. Imaginava no que a galinha “pensaria” ao ver a sua mãe com uma faca amolada na mão, puxando-lhe o pescoço para a degola. Logo ela, Corrinha, que todos os dias a alimentava, cuidava dela quando tinha “gogo”…

A galinha a ser sacrificada iria olhar, sem entender e nos estertores da perspectiva de morrer, para aquela mulher com a arma fatal que lhe ceifaria a vida. Isto era muito diferente do ataque de uma raposa ou de outro predador, já sabidamente inimigo dela, galinha. No caso do predador ao menos tinha chance de escapar.

Em vez disso estava Corrinha, que sempre se mostrara tão amiga, ali no ponto de tirar-lhe a vida. Terrível.Tudo isso passava pela cabeça daquele garoto. Não, Pedim não poderia concordar com aquele ato de violência. Pior ainda, de traição. Sim, traição mesmo. Brigava com a mãe, mas no final sempre prevalecia a vontade dos adultos.

Na hora do almoço Pedim sentado à mesa com seus pais e irmãos, tinha os olhos marejados. A comida lhe inchava na boca. Cresceu, mudou-se para uma grande cidade e descobriu que os abates de bois, suínos, carneiros e bodes conseguem ser ainda mais cruéis. Decidiu que nunca mais um animal teria que morrer para ele, Pedim, se alimentar.

Uma decisão radical? Talvez. Mas fundada em sentimentos de respeito ao direito à vida para os outros animais.

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