“VIVER NÃO É PRECISO…”

José Lemos*

            Viver é estar sujeito a eventos imprevisíveis. Sonhos que acalentamos com esmero, podem não se concretizar por causa de um imprevisto. A probabilidade de acontecer situações indesejáveis na nossa vida aumenta na medida em que o tempo avança. Quando mais jovens temos a impressão de que teremos vida eterna. Nesta fase, quando olhamos uma pessoa de quarenta anos ou mais, com cabelos já ficando prateados, em geral, as tratamos com desdém. Sem nos aperceber da grosseria, as chamamos de “tia”, “tio”. Em casa, os pais perdem os nomes. São simplesmente tratados como “velhos”, “coroas”. Dizemos que estão ultrapassados. Não temos tempo para dialogar com eles, lhes contar confidencias. Preferimos as “redes sociais”. Flertamos com a “virtualidade das amizades”.

            Nas vésperas dos dias das Mães, ao despedir-me dos meus estudantes. nas disciplinas que leciono nos cursos de pós-graduação e de graduação, eu falo para os meus estudantes serem carinhosos com aqueles entes que lhes deram a vida e que tudo fazem para que o melhor lhes aconteça. Lembro-lhes que apesar de educar os filhos ser uma obrigação dos pais, neste Brasil de hoje eles fazem ginásticas para lhes prover esse direito. Conquistar vaga numa Universidade Pública acaba sendo privilégio de alguns. Também por isso eu lhes sugiro: No dia das mães, não precisam dar presente material. Basta um abraço, um beijo e chamá-la de Mamãe. Assim mesmo. Soa gostoso aos ouvidos. No dia dos Pais, que não tem o prestigio e o apelo comercial do dia das mães, façam a mesma coisa. Dêem-lhe um abraço, um beijo carinhoso no rosto e chamem-no de Papai. Nada de referir-se ao pai e à mãe como “velhos”. Muito menos como “coroas”. Papai, Mamãe é como ambos querem ser tratados. Prossigo na minha preleção de despedida dizendo-lhes: Façam isso enquanto ainda podem. Depois que eles forem saudade, não adiantará exaltar-lhes as qualidades, pois não mais ouvirão. Precisarão apenas de orações.

            Acompanhei na semana passada pelo canal da BBC de Londres, e pela CNN americana, a cobertura que foi dada ao falecimento do ator Philip Hoffman, ganhador de Oscar de melhor ator em 2006. Não tinha muita familiaridade com a carreira dele, mas pelo destaque que aquelas duas estações prestigiosas deram na cobertura da sua passagem, fiquei com o sentimento de que ele foi um talentoso ator. Mas o que chamou atenção é o fato de ele ter sido encontrado morto, aos quarenta e seis anos, no banheiro do seu apartamento. Junto ao seu corpo havia uma seringa, provavelmente destinada à aplicação de alucinógeno. Esta foi a suspeita da policia americana. O passado dele como usuário contumaz de álcool e drogas sugeria que a causa morte teria sido uma super dose de produtos alucinantes.

            Ele é apenas mais um que se junta aos casos de famosos como Elvis Presley, Elis Regina e muitos anônimos que morreram e morrerão assim. A pergunta que fica é: O que leva um humano, que dizemos ser o mais racional dos seres vivos, a cometer a atrocidade da autodestruição? O que induz uma pessoa começar a fumar na juventude prosseguir com o vício até aparecer, com certeza, a disfunção erétil, diagnóstico de algum tipo de câncer, de doença pulmonar, ou AVC? O que faz alguém enveredar pelo alcoolismo que deforma o corpo, destruir o cérebro e a vida? Em geral começa-se a beber e ou a fumar na juventude e os estragos vão se acumulando no organismo. Viciados em fumo, álcool ou outra droga, exibem idade aparente superior à biológica. Philip Hoffman estava assim. Muito envelhecido para a sua pouca idade. Ora, se a vida é imprecisa, quando maltratamos o nosso organismo dessa forma é claro que estaremos abreviando a nossa breve passagem por aqui, aumentando a probabilidade de que eventos fulminantes destruam os nossos sonhos.

Quando jovens devíamos aprender que a maturidade é o caminho natural de quem não morre cedo. Por isso é sempre dignificante respeitar aqueles que lograram ultrapassar a fase da vida em que somos, naturalmente, mais irreverentes, irresponsáveis até. A juventude é para ser vivida intensamente. Mas requer a sabedoria de estarmos atentos com a possibilidade de incorporar hábitos, vícios, costumes que se encarregarão de nos privar, mais tarde, de também ser incomodados. Pela precocidade da nossa passagem pela terra, causada por maus hábitos, jamais seremos chamados de “tio”, “tia”, “velho”, “velha” ou “coroa”. Ou, devido a esses maus hábitos, sermos tratados precocemente desta forma.  Caso tenhamos a ventura de chegar à maturidade pelo decurso do tempo, saberemos como é ruim receber tratamento odiento, carregado de preconceito e de discriminação. A vida é como ela é. Jamais será do jeito que gostaríamos que ela fosse. Eternamente jovens. Lição difícil de apreender, mas necessária de absorver. Para não sermos infelizes por aqui. 

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Artigo publicado no dia 8 de fevereiro de 2014 no O Imparcial

 

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