Um papa ligado ao seu tempo

José Reinaldo

O Papa Francisco é um dos nossos. Da América Latina, nascido na Argentina, conhece nossa realidade de pobreza e iniquidade. Conhece os nossos políticos e o que eles construíram e continuam a construir por aqui. A demagogia, a corrupção, a pobreza de um povo abandonado, das profundas carências da educação ofertada por aqui, do descompromisso com a saúde, com a segurança, com a preparação e a formação dos jovens em meio ao abandono em que vivem. Presas fáceis dos traficantes e das drogas que liquidam com famílias inteiras abandonadas pelo poder público. Do desemprego dos jovens, da falta de esperança que leva às revoltas e ao repudio da classe política. Sabe da pobreza, da desvalia e não esconde a sua preocupação com o mundo que está sendo construído por aqui, das idolatrias fúteis, de falsos e ocos líderes que não levam a nada, da apologia à riqueza e ao egoísmo. Conhece a falsa felicidade decorrente dessas ilusões.

Tudo isso ele conhece muito bem. E como conhece, quer mudar essa realidade. E em decorrência disso, ele prega profundas modificações na atitude de todas as pessoas. E dos padres e bispos também.

E elegeu os jovens como foco dessa mudança, tão ameaçados pelo desemprego, pela descrença em tudo e por não ver nos políticos um discurso e uma prática com a mínima sintonia com a realidade em que está imerso.

Pois bem, em seu discurso logo depois que chegou, ao lado das maiores autoridades políticas do país, Francisco disse que “a juventude está em crise” e corre o risco de “nunca trabalhar”, logo depois de ouvir a presidente fazer um discurso deslocado do momento, porque laudatório de seu próprio governo que sofre no momento grande contestação manifestada nas ruas por tanta gente, em sua maioria jovens. O papa cobrou educação e meios materiais para que os jovens possam se desenvolver. E alertou para o risco de se criar uma geração perdida diante da incapacidade de os jovens encontrarem trabalho. E cobrou dos políticos: “Nossa geração se demonstrará à altura da promessa contida em cada jovem quando souber abrir-lhes espaço: tutelar as condições materiais e imateriais para o seu pleno desenvolvimento, oferecer a ele fundamentos sólidos, sobre os quais construir a vida, garantir-lhes a segurança e educação, para que se torne aquilo que pode ser”. Disse ainda o pontífice: “estamos acostumados com uma cultura descartável. Fazemos isso com frequência com os idosos e, com a crise estamos fazendo o mesmo com os jovens. Precisamos de uma cultura de inclusão”. E completou: “É verdade que os jovens são o futuro do povo, porque tem energia. Mas eles não são os únicos que representam o futuro. Os idosos também, porque tem a sabedoria da vida”.

Miriam Leitão, por sua vez, em sua coluna Panorama Econômico, mostra os dados. Com o título ‘Futuro Ameaçado’, diz que “a juventude está ameaçada em vários aspectos. A morte prematura dos rapazes ronda os jovens no mundo inteiro. O desemprego dos jovens é alto até no Brasil em que a taxa geral está baixa. (A taxa de desemprego global do país é de 5,8% mas a dos jovens entre 18 e 24 anos é de 13,6% e crescente). Na Europa há o risco de uma geração perdida. E há os jovens que não trabalham nem estudam. A juventude sempre esteve exposta a riscos, mas agora eles se agravaram”. A repórter continua dizendo que “a frustação pode causar traumas e inseguranças que a pessoa carregará a vida inteira. As pessoas que tem responsabilidade e poder no mundo, qualquer que seja a sua área de atuação, pode ser formador de opinião, empresário, professor, formulador e executor de política pública precisam entender que estamos errando dramaticamente com a juventude”.

O Papa chama o traficante de “mercador da morte” e critica liberar uso de drogas. “Não é deixando livre o uso de drogas, como se discute em várias partes da América Latina, que se conseguirá reduzir a difusão e a influência da dependência química”, disse o Papa. Para ele, a solução não vem de liberar o uso, mas de uma estratégia para “enfrentar os problemas que estão na raiz do uso das drogas, promovendo maior justiça, educando os jovens para os valores que constroem a vida comum, acompanhando quem está em dificuldade e dando esperança no futuro. Visitando um polo de atendimento integral a dependentes químicos, disse que a função da igreja não é condenar, mas prestar solidariedade que gere esperança e força necessária à superação. Tanto em Aparecida como no Rio, fala da moral católica e de seus valores maiores: solidariedade, fraternidade, amor, alegria, esperança. Não um moralismo de condenação e fechamento, mas uma moral positiva. Uma moral em que os vetos existem, mas ganham seu real sentido de defesa do amor e da realização, afinal, o mal sempre deverá ser condenado, se queremos o bem. Esse é seu maior desafio: mostrar ao mundo a moral católica como amor e esperança.

Em uma favela “pacificada”, ele falou que a UPP não será solução, se os problemas sociais não forem sanados. E convocou os jovens a continuar a protestar contra corrupção. Para ele, “a grandeza de uma nação só pode ser medida a partir de como trata seus pobres”, conclamou.

E olha que o Papa Francisco nem conhece o Maranhão. Mas já deve ter ouvido falar dos nossos “líderes”…

E para concluir, o anúncio da desistência de Lobão, que, como todos sabem, é quem detém mais votos no grupo do governo, só quer dizer uma coisa: experiente como é, chegou a conclusão que a causa está perdida e que seu grupo não tem a menor chance de fazer o governador. Do contrário, não abriria mão da candidatura.

O ex-governador José Reinaldo Tavares escreve para o Jornal Pequeno às terças-feiras

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