Navegar é Preciso e Fascinante*

José Lemos

No texto de hoje vou me permitir uma variante de uma expressão de navegadores portugueses antigos (“navegar é preciso, viver não é preciso”), fascinados pelas aventuras das viagens marítimas e que Fernando Pessoa transformou numa belíssima poesia. A interpretação que me permito é a de que a vida é imprevisível. Isto porque a nossa trajetória neste planeta é marcada por fortes componentes aleatórios. Há indefinições no que pode nos ocorrer durante a nossa breve estada por aqui. Planos bem traçados podem esbarrar em imprevistos desagradáveis. Não é por acaso que os cristãos que falam a língua portuguesa quase sempre usam a expressão “se Deus quiser”, quando se referem a algo que acontecerá no porvir.

O termo técnico “Esperança de Vida ao Nascer” tenta aferir o nosso tempo médio de vida. Sem entrar em aspectos técnicos enfadonhos, apenas lembro que esperança matemática é a tradicional média aritmética. A esperança de vida ao nascer associa aos anos de vida, em determinado local, uma probabilidade. Apenas aos eventos aleatórios associam-se probabilidades. Assim, ao nascer, cada um de nós tem uma probabilidade de viver determinado número de anos. Não há garantias de que aqueles anos sejam vividos. Por isso o termo “expectativa de vida ao nascer”. O ambiente em que vivemos, o estilo de vida, as posses, o acesso aos serviços essenciais, em que a qualidade da moradia é um dos mais relevantes definidores, são alguns dos elementos que ajudam para se ter uma vida mais longa, saudável e ter alguma chance de viver alguns anos a mais, ou acima da média no ambiente em que escolhemos para morar.

Sendo aleatória, a vida pode nos aprontar acontecimentos imprevisíveis e imponderáveis. Eventos, que imaginamos somente acontecerem nas nossas vizinhanças podem bater na nossa porta e tornar-se visita inconveniente. É provável que um dia sejamos surpreendidos por situações indesejadas. Quase sempre não estamos preparados para elas.

Nós, seres humanos, quase sempre, apenas valorizamos a vida, na forma que deveríamos, quando nos deparamos com fatos que acreditávamos que jamais chegassem à nossa casa, à nossa família, ou em nós mesmos. Nesses momentos partimos para a reflexão no que provavelmente acreditamos ter feito de errado. Tentamos buscar explicações que talvez não encontremos, justamente porque imaginamos que sempre fizemos tudo corretamente. Este parece ser o comportamento normal da espécie humana.

Se a vida é assim, tão incerta, por que então não aproveitá-la em plenitude? Por que não viver intensamente cada minuto, como se fosse o último? Talvez observando as coisas simples possamos encontrar um viver com mais qualidade. Que tal o acordar cedo e sair por ai caminhando, ou mesmo correndo, ouvindo as primeiras manifestações de vida no canto dos pássaros, nos primeiros raios de sol, no orvalho sobre as folhagens das ruas? Por que não olhar em volta e cumprimentar as pessoas? Por que não apreciar o cair da chuva e sentir o odor de terra molhada, seguramente um dos melhores aromas disponibilizados graciosamente para nós pela mãe natureza? Por que não chegar ao trabalho e cumprimentar a cada um dos colegas, sobretudo aqueles que exercem as funções mais humildes? Por que não acariciar as pessoas que nos amam, e que nós amamos, e dizer-lhes palavras afetuosas?

A minha mãe, todas as manhãs, ao levantar-se, sempre agradecia a Deus, por mais um dia de vida. Eu, ainda criança-adolescente, não entendia bem o porquê daquele ritual diário daquela mulher que foi o principal pilar na estrutura moral e ética da nossa família. Mal eu sabia que ali estava uma, dentre tantas, das suas sabedorias aprendidas e apreendidas longe das escolas, mas com os ensinamentos da própria vida que lhe foi longa.

Navegar é fascinante, desafiador e é uma das nossas missões aqui na terra. Enveredar por caminhos seguros, ainda que mais longos, é um desafio. Em nossa trajetória por este planeta às vezes somos tentados a trilhar por atalhos para atingir objetivos. Será que vale a pena atingir um objetivo rapidamente? As buscas frenéticas de riqueza material e de poder seriam boas metas a serem perseguidas? Os meios justificam os fins? Ainda que acreditemos que os fins sejam nobres?

Desenhamos uma trajetória para a nossa caminhada por aqui e, no decorrer do percurso podemos ser surpreendidos por um ataque cardíaco; por um acidente fatal que nos ceifa a vida, ou nos deixa com sequelas definitivas; por um câncer… Então não devemos fazer projetos para a nossa vida? Claro que devemos. Contudo, precisamos estar atentos e preparados para as armadilhas que podem se nos aparecer. Ficar antenados porque pode ser que não tenhamos tempo de pedir desculpas para pessoas que magoamos com atitudes, palavras ou gestos. Devemos, urgentemente, pedir perdão para quem magoamos. Falar “eu te amo” para as pessoas que amamos. Tentar fazer as pazes com pessoas que acreditamos serem nossos inimigos. Precisamos e devemos ter em mente que navegar, no sentido figurado ou literal, sempre será preciso, e é uma das nossas muitas missões na terra. Mas também devemos ter a sabedoria milenar de que viver não é preciso. É incerto, aleatório!

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*Artigo publicado no Jornal O Imparcial em 3/11/2012

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