As três biografias de Jackson Lago

Do Blog do Manoel Santos

Jackson Lago e Dra. Clay, sua companheira inseparável

Em um de seus livros mais elogiados – “O Coração do Homem e o Coração de Cristo” -, o saudoso padre João Mohana (1925-1995) afirma que quem quer que disponha de uma ponta de notoriedade, mesmo ínfima, quase insignificante, precisa saber que o destino lhe reserva três biografias: uma, por obra e graça de seus amigos, quase sempre colorida e generosa; outra, por obra e graça de seus inimigos, quase sempre imaginosa e cruel, e outra mais, singela, desataviada, sem maiores relevos, com um ou outro lance feliz, por obra e graça do próprio biografado.

Foi refletindo sobre essa passagem do livro do padre que, nas últimas semanas, vivamente interessado, me pus a terminar de ler “Memórias de Brizola – O Guerreiro do Povo Brasileiro”, livro de Jairo Antônio Casalli. Grande admirador de Leonel Brizola (1922-2004), o dentista gaúcho faz um minucioso relato da trajetória pessoal e política daquele que considera “um dos maiores políticos do mundo”.

É uma narrativa sentimental feita por um trabalhista em homenagem a outro e que aborda os conflitos políticos que marcaram a trajetória do ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro.

É fato que há alguns exageros e disparates, mas a narrativa do dentista gaúcho sobre Brizola, redigida na fase em que a revista ‘Veja’ o chamava de “paranóico”, mostra as desventuras do velho caudilho, que tentou em vão chegar à Presidência da República, depois de amargar um longo período de exílio.

À semelhança de Brizola, Jackson Lago (1934-2011) enfrentou suas agruras, numa escalada que se iniciou em 1974, quando conseguiu se eleger para a Assembleia Legislativa do Maranhão. Pela primeira vez, foi candidato a prefeito de São Luís em 1985. Foi secretário estadual de Saúde em 1987 no Governo Cafeteira e, por três vezes, Jackson foi eleito prefeito de São Luís: em 1988, 1996 e 2000.

Após a vibrante campanha da Frente de Libertação e a eleição histórica de 2006, Jackson recebeu a faixa governamental das mãos de Zé Reinaldo, na Praça Maria, naquele memorável fim de tarde do dia 1º de janeiro de 2007.

Logo depois da cerimônia, cercado de jornalistas, ele afirmara que colocaria toda a sua experiência acumulada a serviço do honroso cargo de governador do Maranhão. Mas logo veio a turbulência e, no auge de sua maturidade política, acabou sendo defenestrado do cargo.

Por ocasião da morte de Jackson, ocorrida no dia 4 de abril de 2011, o jornalista e advogado Reginaldo Telles, militante ‘histórico’ do PDT, veio de público chorar a morte do grande líder e fazer seu lamento, com estas palavras: “Foram forças escancaradamente conservadoras e aliadas ao rolo compressor das novas forças falsamente progressistas que impediram Jackson Lago de governar e realizar o seu trabalho. Assim como aconteceu a Getúlio Vargas e João Goulart no plano nacional, assaltaram o poder no Maranhão, derrubaram Jackson do governo e contribuíram decisivamente, disso não tenho dúvidas, para sua morte prematura”.

É fato que, politicamente, Jackson não escondia a sua condição de homem da esquerda. Daí a vigilância de seus passos, por parte dos adversários mais poderosos, que obtiveram na Justiça a cassação de seu mandato de governador.

A boa notícia é que uma legião de amigos se juntou aos familiares de Jackson, em São Luís, na noite da última quinta-feira (1º de novembro), às vésperas do Dia de Finados. Em clima de grande emoção, foi celebrada uma missa na Igreja dos Remédios, em memória do ex-governador, justamente nesta data em que ele comemoraria o aniversário de seus 78 anos.

Outra boa notícia é que o Instituto Jackson Lago, recentemente criado em São Luís, é cada vez mais contactado por estudantes, pesquisadores, estudiosos de diversas áreas, interessados em desenvolver dissertações, teses e monografias sobre a trajetória política do ex-governador.

Agora, voltando àquela passagem do livro do padre João Mohana, vê-se que é cada vez mais rico o acervo de papéis, filmes e fotografias que, aos poucos, vão-se juntando a diversos outros registros e documentos que servem para reconstituir não apenas a trajetória do ex-governador – à luz de sua verdadeira biografia -, como também para resgatar diversos outros personagens e episódios cruciais das lutas que se trava até hoje, movidas pelas esperanças históricas do povo do Maranhão.

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